
A Peleja do Cantador com a midia marvada
A Peleja do Cantador com a midia marvada
“Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos…”( François Silvestre, cantador)
O Cantador e a mídia
A cultura regional,com maior força a nordestina, tem sido exposta ao grande público das metrópoles brasileiras e este recebendo-a e integrando-a ao seu dia-a-dia de várias formas. Há meio século que os meios de comunicação ajudam nesta tarefa. Pretendo deter-me apenas num tipo de manifestação artística que, ao longo deste período, se estabeleceu e serviu para projetar nomes e difundir outras manifestações características daquela região abrindo espaço para outras manifestações populares, hoje presente nas diversas capitais. Os personagens desse universo regional, ganharam espaço em todo território nacional. O interesse específico do ambiente folclórico nordestino justifica-se pois seus valores culturais expandiram-se e tomaram de assalto outros ares, tão agrestes quanto seus sertões. A cidade, esta acolheu esses valores e tornou-os “consumíveis”, vemos feiras do nordeste não só no nordeste, nossos pais dançaram o baião,o xote, hoje estamos ao som do forró e outros ritmos não tão puros, mas nem por isso de menor qualidade, durante as décadas de 70 e 80 oitenta tivemos contato com a música jovem do nordeste: Alceu Valença, Zé Ramalho da Paraíba e outros. Estes, filhos do autêntico regionalismo nordestino, viveram sua experiência e souberam conjugá-la com outros ritmos e influências. Um fator decisivo nas suas carreiras: O poder da mídia, coisa que o velho Gonzagão – pioneiro do rádio, em se tratando de nordeste – já experimentara,porém com menor força.
Tento apresentar aqui a idéia de que a malvista mídia , ao mesmo tempo ,que para uns distorce, interfere, descaracteriza e seleciona valores, também é responsável pela disseminação da cultura. Ela também integra, constrói uma unidade e realimenta esses valores. Nos casos analisados aqui pude verificar que o mais isolado cantador do sertão nordestino contribuiu para que representantes dessa sua cultura, os cantores que mantém-se na dita mídia de consumo , aqueles que vendem CD’s e que se apresentam em shows e viajam para o estrangeiro, levam consigo todo aquele ambiente e seus personagens onde cresceram e tiveram sua formação artística. Quando Luiz Gonzaga se apresenta pela primeira vez na Rádio Nacional com seu trio: Zabumba, triângulo e sanfona – e suas vestimentas: Gibão de vaqueiro e chapéu de couro. É o homem nordestino cantando suas histórias, fazendo seu relato do seu mundo. Naquele momento não era Luiz Gonzaga, ao mesmo tempo, o cantador, o cordelista, o vaqueiro, o contador de causos,enfim todos aqueles personagens incorporados ? Neste fim de século Luiz Gonzaga virou um desses personagens, agora incorporado nos jovens artístas da geração de 80 que dialogam coma tecnologia dos shows e do CD: Alceu Valença, Zé Ramalho da Paraíba, Elba Ramalho, Fagner e outros.
Ao mesmo tempo que, nós daqui do “sul”, podemos consumir este nordeste recente, com arranjos eletrônicos e “mudernos” de forma massiva , se ficarmos atentos poderemos verificar que outros artístas/cantadores estão presentes na mídia de forma menos agressiva.Estes são mais tinhosos e arredios. Mas nem por isso deixam de lotar teatros e casas de espetáculo aqui no “sul”. Refiro-me a um personagem que tenta esquivar-se das garras dessa cruel interdependência dos meios, tenta. Elomar Figueira Mello é o retrato mais fiel daquele ambiente que me refiri acima. Ele produz os seus CD’s em pequena escala, depende da indústria, consegue página inteiras de jornais com grande circulação, já manteve contrato com um grande gravadora no início de sua carreita,mas “arritirôsse” e voltou para sua criação de bodes no alto sertão baiano, mais precisamente em Vitória da conquista. Elomar canta como o cantador/violeiro se utiliza do vocabulário regional ( o que ele chama de canto dialetal ), “não toca na rádio” , mas vende seus CD’s durante suas apresentações, fica o menor tempo possível na cidade grande, compõe operetas onde os temas dizem respeito ao meio ambiente em que vive. Apesar dos arranjos elaborados e sua execução do instrumento ( o violão ) com maior técnica e rico conhecimento musical, Elomar mantém um rastro mais vivo com sua cultura .Resgata as histórias, fala-nos dos causos e seus personagens. Conhecido também pelo título de Menestrel, carrega seu repertório “mundo afora”, reconhecido internacionalmente como tal. Outros “cumpanhêro” merecem ser lembrados: Xangai, Geraldo Azevedo, Vital Farias e outros mais “enraizados” no Vale do Jequitinhonha.
Enfim o Cantador está na midia , nas vozes e nos trejeitos de artistas que assinam contratos com as grandes gravadoras ou de um forma mais pura, mais viva e direta, quase intocada, com público fiel e em menor escala, é o caso de Elomar e seus “cumpanhêro”.
Os valores artístitcos nordestinos mais recentes que nos tem sido oferecido – cantores e compositores populares -, postulam ser seus representantes servindo como interlocutores daqueles aspectos regionais. É certo que o contato com manifestações populares ao longo de suas vidas alimentou-os promovendo assim um enriquecimento cultural solidificando sua formação como indivíduos pertencentes aquela cultura. Em termos de Brasil, os meios de comunicação, principalmente o rádio ( até o fim da década de 40 ) , ainda não tinham força suficiente para determinar modismos e direcionar o gosto popular. A ausência das indústrias, a falta de distribuição da energia elétrica, o dificil acesso, por parte das camadas economicamente inferiores aos bens, como a geladeira, o fogão, a radiola, mais tarde a vitrola e por fim a dificuldade nos transportes, não contribuia para o estabelecimento de um mercado consumidor. No final dos anos 40 a “era do rádio” se estabele por fim e os primeiros discos importados ( 78 rpm ) começam a ser disputados pelas camadas mais abastadas financeiramente, as quais já possuiam o gramofone e a radiola. É o início do mercado consumidor brasileiro. O rádio anunciava seus remédios, fortificantes, águas-de-cheiro, nos intervalos das novelas,noticiários e programas de auditório. Este último responsável direto e decisivo para o desenvolvimento do que seria a autêntica música brasileira. E os cantadores onde estavam eles? Nas feiras é claro, nas fazendas e praças do interior do norte, nordeste e sul. Nesse país isolado chamado nordeste, havia então uma outra “mídia”. A dos cordelistas, repentistas, contadores de causos e cantadores, responsáveis pela divulgação para um povo analfabeto das “últimas lá da capital”, dos crimes e “feitas” dos bandidos, dos romances e conquistas de reis de terras distantes e de outrora. Convivendo com esses personagens estavam aqueles que dariam início a um processo de divulgação dessa cultura. Foi dos programas de auditório, na voz de Luiz Gonzaga , que o Baião – rítmo nordestino autêntico – se apresentou para o resto do Brasil. A partir daí os novo rítmo e suas variantes ( xote, xaxado,etc ) ganhariam a mídia do rádio e por fim o registro fonográfico, pois já se podia adquirir o mais recente produto lançado, a vitrola. No carnaval do “sul” (Rio e São Paulo ) além das marchas-ranchos ouvia-se agora um outro rítmo mais “quente”, o frevo, vindo de Pernambuco . Estava solidificada a troca cultural a partir da música regional . Verificava-se a aceitação desses rítmos e por conseguinte estava dado o primeiro passo para a integração do nordeste ao conjunto das produçõess artístico-culturais autênticamente brasileiras. A presença das gravadoras consorciadas com o potencial dos meios de comunicação são o que definem nossos padrões de gosto musical. Se antes não havia o rádio, havia seresteiros, bandas, chôros nos salões e o samba, que ainda não havia descido o morro. O processo de industrialização aqui não poderia ter sido diferente, promove uma reviravolta em termos de comportamento em todas as camadas da população.
Na passagem para a categoria de “produto de consumo” um bem cultural pode , e na maioria dos casos ocorre, sofrer descaracterização, distorções e ou adaptações no bom e no mau sentido. Durante o período inicial da carreira desses pioneiros ( Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, etc) , musicalmente não sofreriam grandes modificações se comparados às seus estágios anteriores ao advento de sua presença nos meios de comunicação. A música nordestina mantêve-se presente nas décadas posteriores, porém sofrendo as imposições do mercado. Novos valores são revelados: Patativa do Assaré, duplas sertanejas caricatas ou não ( é o caso de Jararaca e Ratinho ), os festivais promovidos, agora pelas emissoras de televisão mostram compositores das grandes metrópoles influenciados pelos motes nordestinos ( Edu Lobo, Chico Buarque Gilbert Gil e outros ). Grupos como Quinteto Violado e Banda de Pau e Corda cantam o nordeste e assinam com gravadoras porém não detém um lugar de destaque nos meios de comunicação. Quando nas décadas de 70 e 80 o mercado de discos volta a absorver artistas vindos do nordeste brasileiro estes, de nôvo, tomam a bandeira nordestina em punho e industrializam essa cultura. Há um novo movimento nordestino na “mídia” de novo o universo cultural do nordeste está presente com seus cegos cantadores, cordelistas absorvidos por artístas que os incorporam nas suas perfomances. Os trejeitos de uma Elba Ramalho, seu sotaque “ arretado”, as composições de um tal Alceu Valença que diz que “vai danado pra catende com vontade de chegá “ ou um Fagner que canta uma tal de “ vaca estrela e um tal de meu boi bumbá “, revelam ou não uma experiência de vida direta com um regionalismo e seus personagens? Então por que não dizer que esses personagens ( os cegos, as feiras, o gado, os cantadores , as brincadeiras ) estão na “mídia” – de forma indireta é claro. Há então uma releitura e uma reinserção desses personagens por partes dos artistas que dialogam diretamente com o mercado. Podemos exemplificar , detendo-nos apenas no aspecto de estruturas musicais utilizadas. Os versos utilizados por compositores como Alceu Valença e Zé Ramalho da Paraíba, por exemplo , por vezes recorrem as estruturas analisadas mais a diante deste trabalho como o martelo , os versos de sete pés, as quadras ou mesmo às linhas melódicas e as rimas das mais conhecidas, os romances tradicionais:
Romance da Bela Inês
( Alceu Valença )
… Acontece que a história não tem pressa
e o amor se conquista passo a passo
O ciúme é a véspera do fracasso
E o fracasso provoca o desamor
Bel’Inês teve medo do condor
queimou cartas, lembranças do passado
Nessa guerra de Deus e do diabo
Entre fogo cruzado desertou
Bel’Inês com seu peito de operário
Não esconde seu ar conservador
Eu tenho um espelho cristalino
Que uma baiana me mandou de Maceió ( Domínio público )
Ele tem uma luz que me alumia
Ao meio-dia clareia a luz do sol
Beira – mar
(Zé Ramalho)
do livrto “Apocalypse “ do autor
Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
De cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar
Além, muito além onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar
Por de das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
Outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar
Até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando beijando o espaço
Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
No peixe de asas eu quero voar
Sair do oceano de tez poluída
Cantar um galope fechando a ferida
Que só cicatriza na beira do mar
Matinada
( Ernani Lobo – adaptação : Raimundo Fagner )
Arriei o Matinada
Meia noite mais u mêno
P’ra roubar uma morena
Na praça do Rio pequeno
Eu cheguei na casa dela
Tardizinha escurecendo
Ela tava m’ esperando
Na ‘ora que nós marquêmo
Com o cabelo molhadinho
Orvalhado do sereno…
Deti-me na cultura nordestina, pois é de lá que pretendo destacar uma última referência artística. Trata-se de Elomar Figueira Mello que mantém um diálogo discreto com a grande mídia. Já foi contratado de grande gravadora, mas não se adaptou ao sistema e voltou ao seu lar o sertão baiano. Mantem a metrópole informada, aparece de ves enquando pelas terras do sul para promover e divulgar suas produções – suas operetas com temas fundamentalmente regionais. Uma característica da obra de Elomar, enquanto violeiro e cantador é sua profunda relação com o seu meio. Nas suas letras e melodias ficam retidos os valores regionais mais puros e intocados. Por não estar trabalhando voltado para um mercado consumidor em larga escala, ele consegue preservar-se e sustentar-se com sua roça e sua criação de bodes tendo registrado ao longo dos anos seu trabalho como cantador em discos e depoimentos, além de apresentações internacionais. Elomar pertence a um círculo de representantes dessa cultura, embora restrita ao público quase que particular, mantém se por longo período num nicho do mercado ainda não muito explorado pela “mídia”. A obra de Elomar é entremeada por cantorias, histórias e desafios mais fiéis a dos cantadores tradicionais, embora haja uma riqueza de harmonização e técnica de execução do instrumento. Suas letras por vezes apresentam formas arcaicas e regionais necessitando para o entedimento um vocabulário que se faz acompanhar nos encartes de seus CD’s. Sua forma de lhe dar com a “mídia” não determinou sua forma se expressar. Ao contrário , me parece que é quase um dever dessa mesma mídia não torná-lo mais um produto de consumo de larga escala, o próprio Elomar se reserva o direito de produzir e vender sua pequena produção quase que independentemente dos meios de comunicação de massa. Show de Elomar no Rio de Janeiro ou São Paulo – é certo matéria garantida nos jornais de grande circulação e seu público se mantém fiel lotando os espaços para shows. A riqueza de sua obra é a mesma riqueza dos artístas que trazem a marca nordestina que assinam com as grandes gravadoras. Elomar e seus “cumpanhêro” trazem o sertão mais aflorado e com menos influências externas. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Elomar traz o cego, os cordelistas, o gado, os contadores de causos, a feira, as praças mas também trás o cheiro do sertão. É o sertão seu limite, de lá ele espreita o mundo.
“ELOMAR FIGUEIRA MELLO, 38 anos , marido de Adalmária, pai de João ernesto, João Omar e Rosa Duprado, vive no interior da Bahia, compondo suas músicas. Em 1973 gravou um elepê que até hoje não se encontra onde comprar. Foi elogiado por pouquíssimos; continuou ignorado por muitos.
Trovador, místico, arquiteto criador de bodes, inspirador de Henfil na criação de Francisco Orelhana ( o verdadeiro existe e mora lá na Caatinga, às margens do Rio Gavião ), e da graúna. Elomar é uma estranha mistura. “Prumodi” compreendê-lo, é preciso viajar 500 e poucos quilômetros, de Salvador até Vitória da Conquista; embrenhar-se com ele numa estradinha de 102 quilômetros, que se percorre de carro, em quatro horas; e depois andar, mais quilômetro e meio a pé, atravessando na areia seca os dois braços do Gavião, vendo os corpos dos cabritinhos mortos ao sol. Tudo isso faz parte do aprendizado. Tudo isso – apenas isso ! – explica o homem inquieto , cercado de morte, empenhado em cantar a vida eterna.”
( Depoimento prestado a Tania Pacheco – Setembro / quase primavera de 1976 – parte do encarte do disco “Na quadrada das Águas perdidas” de Elomar).
“Os canto de seu dotô é bom muito bunito. Seu dotô canta uns canto contado. É pru made Qui num arrecordei sinão deixava pra minhã apois me pegô disprivinida ca cara chuja tava cumem mi. “
( Mariquinha de Quilimero )
Eu, no inverno estou na enxada,
Na seca, estou na viola!
No inverno, vivo dos braços
Na seca, vivo da bola…
(Asa Branca, cantador)
A Cantoria
Após o ajuste de afinação dos instrumentos, feito no recinto do festival, na presença dos ouvintes, com os cantadores postos nos seus lugares, espera-se um pouco, enquanto o povo faz silêncio e tem início o toque das violas. Os cantadores se entreolham como se combinassem o início. Verificada a presença do dono da cantoria que, quase sempre, é o dono da casa, um dos poetas irrompe o canto do primeiro verso, cuja estrofe já estava preparada para abrir a audição. De preferência se refere ao anfitrião, pedindo desculpas por alguma falha ou licença para cantar e depois enveredam pelos elogios recíprocos, de maneira graciosa e atraente, sem ofensas, louvando a poesia, a profissão de violeiro ou a acolhida que tiveram naquele lugar.Dá-se assim o inicio da boa cantoria.
Mas quem é o cantador?
É o descendente do Aedo da Grécia, do rapsodo ambulante dos Helenos, do Glee-man anglo-saxão, dos Moganís e metrís árabes, do velálica da ïndia, das runoias da Finlândia, dos bardos armoricanos, dos scaldos da Escandinávia, dos menestréis, trovadores, mestres-cantadores da Idade-Média, para Câmara Cascudo o cantador “é este que canta há séculos a história da região e a gesta rude do Hoomem”. Curiosa é a figura do cantador. Tem ele todo orgulho do seu estado. Sabe que é uma marca de superioridade ambiental, um sinal de elevação, de supremacia, de predomínio. Dois cantadores juntos podem cantar a noite inteira sem que se duelem. Cantam romances, xácaras dispersas, descrições da natureza, quadros da existência sertaneja, episódios das lutas do sertão, a luta dos cangaceiros com a polícia, sátiras, etc. Uma característica bem marcada na cantoria será o exagêro, a teatralidade espetaculosa e gritante dos cantadores.
“São pequenos plantadores, donos de fazendolas, por meia com o fazendeiro, mendigos, cegos, aleijados, que nunca recusam desafio, vindo de longe ou feito de perto”.
(C. Cascudo)
“Viví no sertão típico, agora desaparecido. A luz elétrica não aparecera. O gramofone era um deslumbramento. O velho João de Holanda, de Caiana, perto de Augusto Severo, ajoelhou-se no meio da estrada e confessou, aos berros, todos os pecados quando avistou, ao Sol-se-pôr, o primeiro automóvel…” (Luis da Câmara Cascudo)
O verso sertanejo
“A transformação é sensível e diária. As estradas de rodagem aproximaram o sertão do agreste. Anulando a distância, misturaram os ambientes. Hoje a luz elétrica, o auto, o rádio, as bebidas geladas, o cinema, os jornais, estão em toda a parte.” Assim Câmara Cascudo inicia o prefácio de sua obra Vaqueiros e Cantadores onde analisa e apresenta versões poético-folclóricas das tradições musicais que se estabeleceram no sertão de Pernambuco,Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Mais a diante ele constata : “ O sertão se modifica rapidamente. Uniformiza-se, banaliza-se. Naturalmente a crítica é inoperante para eles. Melhor é a vida modernizada que a maneira velha do cavalo-de-sela e a viagem com “descanso”…” “ … O canta recuou ante a radiola, a vitrola, o cinema, a revista ilustrada. Mas conserva o seu público restrito,limitado, pobre mas irredutível na admiração. Ainda vivem os cantadores sertanejos. Vivem nas vilas, nas feiras, nas festas das fazendas. Algumas cidades são visitadas po eles. Natal, Fortaleza, Recife, João Pessoa têm seus cantadores nos arrebaldes distantes.”
Para Câmara Cascudo a poesia tradicional sertaneja tem seus melhores e maiores motivos no ciclo do gado e no ciclo heróico dos cangaceiros. O primeiro compreende as “gestas” dos bois que se perderam anos e anos nas serras e capoeirões e lograram escapar aos golpes dos vaqueiros. A notícia de um animal arisco, veloz, fugindo aos melhores vaqueiros, corre de fazenda em fazenda e é aí que um cantador forja os versos, é o boi Surubim, o boi Barroso, o boi da Mão de Pau,o boi Espácio, a vaca Burel, a “besta”da serra de Joana Gomes. As onças preadoras de bodes, cabras e ovelhas merecem também as honras de uma história detalhada. A onça do Cruxatú, do Sitiá são famosas. Outros animais têm sua crônica. O bode dos Grossos, um veado velocíssimo, um cavalo corredor excepcional ficam registrados no armorial da memória sertaneja. Os lances de coragem, as arrancadas doidas, os saltos magníficos, a valentia de vaqueiros ou caçadores, a covardia de uns, a imperícia de outros, arrogância, mentira, timidez, todos os aspectos morais são examinados e duramente expostos com nomes próprios e minúcias identificadoras. O ciclo-heróico dos cangaceiros, posterior ao ciclo do gado, não tem menor abundância nem influência na ´cantoria” sertaneja. Os grandes criminosos estão com suas biografias romanceadas. Menor percentagem é o tema satírico, vezes aproveitado na vida dos animais. O sertanejo ama a história dos bichos, macacos, camaleões, tamanduás, raposas, preás, falando, governando, discutindo, casando. Para Cascudo, o intuito moralista da fábula é evidente e filiar-se-á nas fábulas de Esopo e Fedro, ensinadas outrora nas escolas paroquiais dos missionários. Um tema indispensável: o amor. Todo romance amoroso cantado no sertão é mais ou menos recente e trabalho individual. São histórias românticas como Alonso e Marina, o capitão de Navio, Zezinho e Mariquinha, que terminam em casamento ou começando daí, findam bem.
Com relação aos modelos do verso sertanejo, Cascudo diz que os mais antigos versos sertanejos eram as “quadras”, subentende-se como “pés ” que para o sertanejo não é a acentuação métrica mas a linha, essa acepção ainda é portuguesa. Em quadras foram todos os velhos desafios. A métrica se manteve coerentemente dentro dassete sílabas. Setissilábicas eram os romances, as gestas guerreiras, as xácaras mais populares. Não há exemplo do “dueto”, os versos emparelhados e soltos, como na poética medieval francesa. A constante rítmica é o verso de sete sílabas. Com sete sílabas vem a “colcheia”ou o verso de seis pés, os versos de sete pés, as quadras, que o setanejo chama “verso”. A poesia de sete é a seguinte:
Melquíades, neste sistema
É como pássaro gorjeia;
Começa na lua nova,
Termina na lua cheia.
Afine a sua viola
Para se meter em sola
E depois ir p‘rá cadeia…
A sextilha setissilábica é tão antiga quanto a quadra que Carolina Michaelis de Vasconcelos dizia popularíssima em todo século XVI no qual predominara. No romance do Rei Artur, da Távola Redonda, que Jorge Ferreira de Vasconcelos publicou em 1567 ( “Memorial das proezas da Segunda Távola Redonda”) ao lado das quadras há sextilha igual às dos nossos cantadores:
Como amigo que as más manhas
De Bretanha conheceste,
Mas d’algum tempo ainda Artur,
Bom Rei que desmereceste,
Bretanha virá a vingar-se
Da traição que lhe fizeste.
Nota-se ainda viva a influência das “décimas” , usadas na Espanha entre outros por Cervantes, as oitavas divulgadas pelo infante Dom Pedro de Aragão:
Tudo que digo sustento,
Não tem quem faça eu negar,
Nem você pode privar
Do contrário eu arrebento
Êsse seu pobre instrumento
Não vale pena de arara
O meu sim, é, pedra d’ara,
É de aço até a prima,
“não há quem cuspa p’ra cima
que não lhe caia na cara ”…
Decassílabos são “martelos”, assim o sertanejo chama os versos de dez sílabas, com seis, sete, oito,nove ou dez linhas. A denominação “martelo” revela claramente, para Cascudo, a ligação clássica com os poetas portugueses do século XVII. Pedro Jaime Martelo ( 1665-1727), professor de literatura na Universidade de Bolonha, diplomata e político, inventou os “versos martelianos”ou simplesmente “martelos”, eram de doze sílabas com rimas emparelhadas, este porém nunca foi registrado na poesia tradicional do Brasil.
Martelo de seis pés ( “martelo agalopado”):
Cavalheiro, você está maluco,
Pois não sabe que eu nunca me venci?
P’ra cantar no martelo eu não me venço,
P’ra apanhar de cantor, eu não nascí…
Cantador para dar-me não nasceu,
Se nasceu, meu caboclo,inda não vi…
De “sete”:
O cantor que eu pegá-lo de revez
Com talento que tenho no meu braço,
Só de surra eu dou-lhe mais de dez
E deixá-lo feito num bagaço…
Em público é que não mais nem meno(s)
É porque o diabo terá pena
Só de vê os trabalho qu’eu lhe faço.
A “Carretilha”, também dita ”Parcela” é o verso de cinco sílabas, empregado no desafio, especialmente na parte dos insultos.
Parcela de dez pés:
Eu sou judeu
para o duelo
cantar martelo
queria eu…
O pau bateu
levantou poeira
no meio da feira,
não fica gente,
queima a semente
da bananeira…
A sextilha, o martelo e a parcelada são as formas usuais no desafio.
Outras variantes:
O “Mourão”: – maneira dialogada de versejar. O mourão, estaca forte plantada de cada lado da porteira, nas esquinas das cercas ou no meio do curral. Sentido de fortaleza e segurança. Os poetas associam o objeto à idéia dos seus versos, colocando as proposições em desafio:
1º cantador – Meu mourão é de Aroeira
Você nãopode arrancar
2º cantador – Mas o meu é de Braúna
Pra porteira sustentar
1º cantador – Boto as travessas cruzadas
E outras esquadrejadas
Para o gado não passar…
O “mourão” em quintilha, criado por Romano da Mãe d’Água, e o em sextilha, de prática mais antiga, caíram em desuso,cedendo lugar ao de sete pés, criadopor Manoel Leopoldino de Mendonça ( Serrador), mais cantado atualmente. O “Mourão voltado” inventado po Manoel Noé da Silveira é formado por dez pés onde os cantadores se alternam de um em um ou de dois em dois, até o oitavo, daí pra frente cantam em dupla o refrão:
1º cantador – Volto o carneiro na vaca
Volto a vaca no carneiro
2º cantador – Volto a paca no galheiro
Volto o galheiro na paca
1º cantador Volto o matolão na maca
Volto a maca no matolão
2º cantador E o pecado no perdão
1º e 2º cantadores Volto o perdão no pecado
REFRÃO Isso é que é mourão voltado
Isso é que é voltar mourão
O “Quadrão” obriga ao poeta colocar a palavra quadrão , terminando o verso.
Oito pés em quadrão:
Desta terra brasileira
Encantada e altaneira
Eu beijo a sua bandeira
Retrato desta nação
Seu verde é uma beleza
O amarelo a riqueza
Azul e branco a grandeza
Nos oito pés em quadrão
Bibliografia:
. O Cantador e a Natureza – Bandeira, Pedro – 1938
. Cantador, verso e viola – Araújo Raimundo
. Cantadores e poetas populares – Batista , Francisco das Chagas
. Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga – Dominique, Dreyfus , SP. Editora 34, 1996
. Vaqueiros e Cantadores – Cascudo, Câmara, RJ . Ediouro
. Cartilha do Cantador – Leite Filho, Aleixo , Recife – Pref. Municipal de Arcoverde
Discografia :
. Alceu Valença: Espelho Cristalino ( Som Lvre ), Acervo especial ( BMG )
. Zé Ramalho da Paraíba : Zé Ramalho – Avohai ( EPIC – 1978 )
Zé Ramalho – A Peleja do diabo com o dono do céu ( EPIC – 1978 )
. Quinteto Violado : Até a Amazônia?! ( Polygram – 1978 )
Asa Branca ( Polygram – 1979 )
. Fagner : Raimundo Fagner – ( CBS – 1976 )
. Elomar: Na quadrada das águas perdidas ( Rio do Gavião – 1979 )
Cantoria 1, 2 ( com participações dos “cumpanhêro“ Xangai, Geraldo Azevedo e Vital Farias )e 3 – ( Kuarup )
Folclore II – Prof. Ricardo Lima
Aluno Carlos Jorge de Souza – UERJ
JANEIRO DE 1999
Indicações para audição
Romance da Bela Inês – Alceu Valença (Alceu Valença )
Adeus 2º feira cinzenta – Zé Ramalho ( Zé Ramalho )
Beira-mar – Zé Ramalho ( Zé Ramalho )
Matinada – Fagner (Ernani Lobo – adaptação Fagner)
Roda de Ciranda – Quinteto Violado ( Marcelo Melo – Toinho Alves )
Mourão voltado – Quinteto Violado ( Fernando Filizola – Luciano Pimentel )
Jesus sertanejo – Quinteto Violado ( Janddhuy Finizola )
Desafio do Auto da Cantigueira – Xangai, Elomar ( Elomar)
A Donzela Tiadora – Elomar ( Elomar )
Canto de Guerreiro Mongoió- Elomar ( Elomar )
Arrumação- Elomar ( Elomar )
A meu Deus um canto novo – Elomar ( Elomar )
Curvas do rio- Elomar ( Elomar )
Este ensaio foi desenvolvido em 1999 para a disciplina Folclore II – Professor Ricardo Lima – Departamento Educação Artística da UERJ.
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Muito bom o artigo.
A frase citada como sendo de François Silvestre, eu acho que é de Vital Farias.