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Rio de Janeiro, uma cidade esquizofrênica

Rio de Janeiro, uma cidade esquizofrênica

Uma leitura artística do caos urbano carioca

Carlos Jorge de Souza

“isolados experimentalmente de todo ruído externo, escutamos oi mínimo o som grave da nossa pulsação sanguínea e o agudo do nosso sistema nervoso”( John Cage)”.

No capítulo inicial de O Anti-Édipo – capitalismo e esquizofrenia, Deleuze e Guattari, falam do passeio do esquizofrênico , “um modelo melhor que o do neurótico deitado no divã. Um pouco ao ar livre, uma relação com o exterior”(Deleuze,Guattari, 7 ). Os autores citam um texto de Büchner [1] , onde o passeio de Lenz é algo muito diferente dos momentos em que Lenz está em casa do seu bom pastor, que o obriga a tomar uma posição social em relação ao Deus da religião, em relação ao pai e à mãe. Aqui permito-me fazer uma comparação com o que o antropólogo Roberto DaMatta trata no capítulo A casa, a rua e o trabalho, quando articula questões da identidade social brasileira. Para este autor há uma divisão clara entre dois espaços sociais, fundamentais que dividem a vida social brasileira: o mundo da casa e o mundo da rua – onde estão, teoricamente, o trabalho, o movimento, a surpresa e a tentação. Ele diz “o fluxo da vida, com suas contradições, durezas e surpresas, está certamente na rua, onde o tempo é medido pelo relógio e a história se faz acrescentando evento a evento numa cadeia complexa e infinita (…) Local onde ninguém nos respeita como “gente”ou “pessoa” , como entidade moral dotada de rosto e vontade”(Da Matta, 29). O discursso do Anti-Édipo prossegue apoiando-se ainda no texto de Büchner: “nas montanhas, pelo contrário, sob neve, ele está com outros deuses ou sem deus nenhum, sem família, sem pai nem mãe, com a natureza. < < Que quer o meu pai? É impossível que ele me possa dar algo melhor. Deixem-me em paz. >> Tudo é máquina. Máquinas celestes, as estrelas ou o arco-íris, máquinas alpestres que se ligam com as do seu corpo.Barulho ininterrupto de máquinas. < < Pensava que devia ser um sentimento de uma infinita beatitude o ser tocado pela vida profunda de qualquer forma, ter uma alma para as pedras, os metais, a água e as plantas, acolher em si todos os objetos da natureza… >> Lenz colocou-se para cá da distinção homem-natureza, com todas as características que esta distinção condiciona. Não vive a natureza como natureza, mas como processo de produção. Já não há nem homem nem natureza, mas unicamente um processo que os produz um no outro, e liga as máquinas. Há por todo o lado máquinas produtoras ou desejantes, máquinas esquizofrênicas, toda a vida genérica: eu e não-eu, exterior e interior, já nada querem dizer”. (Deleuze,Guattari,8) Este trecho extraído do capítulo As máquinas desejantes já me conforta e se conforma com minha idéia de identificar um organismo esquizofrênico no contexto da cidade que, consequentemente, propicia ao indíviduo (e às instituições) manterem relações numa escala de valores que subjulga-o e o arremessa em direção a um estado vegetativo ( no sentido patológico ) fazendo com que, por vezes , inrrompa eventos que fluem diretamente de um estado inconsciente e portanto escapando ao controle. Em Caosmose, Guattari admite que não só suas atividades no campo da psicopatologia e da psicoterapia mas também seus engajamentos político e cultural levaram-no a enfatizar cada vez mais a subjetividade enquanto produzida por instâncias individuais, coletivas e institucionais. Minha observação pretende identificar onde o imaginário da metrópole se apóia para garantir a manutenção da catalepsia coletiva. O simbólico, a comunicação massiva, ininterrupta, a troca de olhares e situações que requeiram do indivíduo apenas sua presença corpórea – através do qual este será conectado às máquinas desejantes – serão abordadas e identificadas como atos autômatos, mas tentarei demonstrar que, estes atos autômatos fazem realmente inrromper uma esquizofrenia, como a pensada por Deleuze e Guattari, e possibilitam a abertura do canal (fruição da libido, para os psiquiatras) ou a passagem pela porta (Argan) que devolve a natureza do homem ao homem. Começarei a definir o que seja o conceito de inconsciente na psicanálise freudiana e jungueana, para depois apoiar-me na idéia de Argan, como historiador da arte, que identifica a neutralização do indivíduo (e seu ego), no contexto da metrópole, para adiante trabalhar o conceito de mito e reconciliação abordado por Walter Benjamin. A partir de então dedicar-me-hei a transportar esses conceitos para o imaginário da cidade do Rio de Janeiro, na qual resido e sou testemunho do seu cotidiano. Mantenho ainda como meta da minha pesquisa: localizar o artista [2] nesse contexto, a obra de arte que utiliza a cidade como suporte, seja através da sua arquitetura, seu movimento, sua dança urbana ou sua catarse, ou seja, os elementos – sejam físicos, morais ou espirituais – que sustentam o ato criador na esfera da megalópole através dos seus portais instantâneos [3] .

Um levantamento histórico e uma leitura do organismo urbano carioca, incluindo-se aí tudo que se relaciona direta ou indiretamente com o cotidiano da cidade, poderá revelar aspectos esquizofrênicos – entendendo-se aí o termo a partir das diversas visões dos vários autores relatados .

Guattari, nos apresenta os diferentes registros semióticos que concorrem para o engedramento da subjetividade, esta não está, para o autor, submetida aos sistemas tradicionais de determinação do tipo-estrutura material- superestrutura ideológica. “Pelo menos três tipos de problemas nos incitam a ampliar a definição da subjetividade de modo a ultrapassar a oposição clássica entre sujeito individual e sociedade e, através disso, a rever os modelos de Inconsciente que existem atualmente: a irrupção de fatores subjetivos no primeiro plano da atualidade histórica, o desenvolvimento maçico de produções maquínicas de subjetividade e, em último lugar, o recente destaque de aspectos etológicos e ecológicos relativos à subjetividade humana” (Guattari, 11). Se olharmos a contemporaneidade ou para o lado das produções semiótico-maquínicas ou para o lado da etologia da infância, da ecologia social e da ecologia mental, encontraremos, segundo Guattari, o mesmo questionamento da individuação subjetiva que subsiste certamente, mas que é trabalhada por Agenciamentos coletivos de enunciação . Então proponho: Como ser sujeito ativo dessa sociedade? Talvez o artista ou o seu ato proponham a resposta. Podemos todos nós sermos artistas ou criadores de situações onde o que se manifesta é o novo, sem assimilar a psicose a uma obra de arte e o psicanalista, a um artista – como questiona Guattari? Poderia se tratar aqui, então, de admitir que este novo promove-se a partir de uma autonomia de ordem estética e que em Deleuze, nas suas pesquisas sobre novas forma de arte, dá-nos como exemplo, associada as “imagens-movimento ou imagens-tempo do cinema e que se constituem igualmente em germes de produção de subjetividade” ( Guattari, 15).


”É missão do artista penetrar tão longe quanto possível na busca do fundo secreto das coisas onde uma lei primordial entretém seu crescimento… Com o coração batendo, somos levados cada vez mais para baixo, para a fonte primeira”. Paul Klee

Partindo do universo da psicanálise, enveredando-me nas camadas mais densas e recentes da filosofia, sem distanciar-me da história da arte, proponho lançar um olhar sobre os caminhos do imaginário urbano, mais especificamente o imaginário urbano carioca, detectando, como demonstra Italo Calvino em As cidades invisíveis , imagens de coisas que significam outras coisas. Procurarei entender a cidade do Rio de Janeiro como uma articulação dialética de símbolos que montam uma identidade sócio-cultural. Pretendo tratar das proposições filosóficas, antropológicas, sociológicas econômicas e por que não políticas, para desencadear um processo de abordagem do tema da manifestação artística e sua problemática num viés patológico, no sentido utilizado por Walter Benjamin, abordado mais a frente. Será necessário num primeiro momento abordar aspectos históricos da cidade: sua fundação, aspectos que delinearam seu perfil urbano, intervenções e reformas agudas sofridas ao longo da sua história. políticas federais, a perda do status de sede do Governo. A ocupação acelerada sofrida a partir do século XIX, fatores geopolíticos, massas migratórias e periferia, a ausência de identidade dessa periferia para com o grande centro da metrópole. Mostrar como esses dados levam à uma efervecência sócio-cultural que inrompe num furor produtivo de eventos pertubadores beirando o suicídio como na visão de Benjamin. Em tais pertubações tentarei identificar, em determinados casos, a ausência de um regulador ( superego ) – agente burocrático necessário à organização social. Por vezes , na ausência desse agente burocrático , tal evento se processa ao nível do incosciente ( a “obra de arte” para a maioria dos autores abordados ) de forma esquizofrênica.


“Há um lado épico da vida moderna, das paixões propriamente citadinas que os artistas seus contemporâneos não enxergam.”( Katia Muricy )

Justificar a utilização do conceito de esquizofrenia aplicado ao contexto da pesquisa, procurando demonstrar como se processaria tais pertubações que eventualmente ocorressem, da forma proposta nesse projeto, no ambiente urbano. A obra de Gilles Delleuze e Félix Guattari, O Anti-Édipo, capitalismo e esquizofrenia, servirá de base para as hipóteses propostas durante o processo de elaboração da pesquisa bem como, outras obras desses autores que abordem o tema. Nesta obra os autores tentam desmostrar é que as produções e formações do inconsciente são, não apenas repelidas por uma instância de recalcamento que se comprometesse com elas, mas verdadeiramente recobertas pelas anti-formações que desnaturam o inconsciente em si mesmo e lhe impõem causações, compreensões e expressões que já nada têm a ver com o funcionamento real”(O Anti-Édipo, 354).

Outro teórico, no qual procurarei apoio, de forma a orientar-me com seus conceitos, principalmente o de mito e realidade, é Walter Benjamin. Compartilho da idéia da transdisciplinaridade dos problemas, portanto não me abstenho de trazer para o contexto de uma discussão artística teóricos que tratam dessa mesma discussão, intercalando-a com outras esferas do conhecimento humano. Em momentos da obra de Benjamin pode se verificar essa transdisciplinaridade : “os escritores, os artistas, não reagem imediatamente às transformações da sociedade, mas sim àquelas da estrutura da experiência. A experiência [4] aparece como um conceito de mediação entre a estrutura econômica da sociedade e a criação artística” [5] . Experiência é noção fundamental de sua teoria da cultura. A ela se junta a noção de vivência (Erlebnis) que se relacionam à memória, individual e coletiva, ao inconsciente, ao choque.


Objetivos específicos

1. Tratar da cidade do Rio de Janeiro sob as óticas de seus aspectos urbanos, políticos e sociais;

- Levantar as matrizes urbanas: nativos, colonizadores, negros e invasores – a defesa da cidade;

- Mapear determinados aspectos da geometria urbana, que contribuem para a definição de aspectos psico-sociais urbanos;

- Mapear as cicatrizes urbanas e suas sequelas deixadas ao longo da história urbana da cidade, para isso tentarei localizar como sendo a primeira grande ferida promovida pelo novo homem urbano na cidade o evento do aterro da Lagoa do Boqueirão, pontuando desde então outros eventos, cito:

. o desmonte do Morro do Castelo;

. a reurbanização da Praça Onze;

. a abertura da Avenida Presidente Vargas, etc.

- Identificar localidades ou bairros que a partir do rebaixamento do seu status adquirem outra personalidade, como por exemplo, bairros como São Cristovão e toda a zona periférica do Cais do Porto, entre outros.

2. Relatar aspectos da interação do indivíduo com o meio urbano, tentando identificar movimentos que permitam estabelecer relações com o universo da arte e/ou sua prática, para isso trarei à discussão aspectos do imaginário da cidade que estão, ao meu ver, estabelecidos no seu cotidiano;

- Estabelecer relações entre espaços reais e sua simbologia:

. o espaço do lar;

. uma simbologia para o espaço interno do automóvel particular e dos meios de transportes

coletivos urbanos;

. os personagens oficias;

. os personagens marginais da cidade: os profetas dos muros, o mendigo, travestis e

prostitutas;

. os guetos;

. o Canal do Mangue: um significado.


3. Dimensionar o papel burocrático do superego urbano e relacionando ao espaço arquitetônico dos edifícios oficiais ;

- Decodificar a arquitetura das instituições públicas e como essas se relacionam com o meio e com o indivíduo:

. edifícios oficias – significados;

. a diferente relação com os bens tombados pelo Partimônio Artístico Cultural;

. A megalópole adormecida no fim de semana;

. A obra de arte que o público não enxerga.

4. Demarcar, fundamentar e categorizar as pertubações promovidas por um inconsciente urbano, partindo do pressuposto de Argan para correlacioná-lo com uma história da cidade, consequentemente com uma história da arte;

- Folguedos urbanos:

. o Carnaval;

. os shows do meio-dia;

. A música e a dança da massa humana num dia normal;

. o olhar perdido do turista no centro da cidade;


“Ai que vida boa olerê

Aique vida boa olará

O estandarte do sanatório geral vai passar ”

( Chico Buarque)

A definição para o termo esquizofrenia que encontramos no Manual de Psiquiatria Clínica diz que se trata de um “distúrbio de etiologia desconhecida, caracterizado por sintomas psicóticos que comprometem de forma significativa o desempenho e envolvem pertubações das sensações e sentimentos, do pensamento e do comportamento. O distúrbio é crônico, e geralmente apresenta uma fase ativa com delírios, alucinações ou ambos e uma fase residual, na qual o distúrbio pode estar remitido” ( Kaplan e Sadock, p 77 ) . Em Obras Completas, Freud quando se detem na relação entre Filosofia e Psicanálise condena os filósofos que assumiram posições onde, o inconsciente e suas manifestações são tratados como algo místico, intangível e indemonstrável , cuja relação com a mente permaneceu obscura, ou indentificaram o mental com o consciente e passaram a deduzir dessa definição que aquilo que é inconsciente não pode ser mental nem assunto da psicologia. Mais adiante, no mesmo volume, com relação ao interesse sociológico da Psicanálise, Freud destaca que a Psicanálise toma como tema a mente individual, mas, ao fazer investigações sobre o indivíduo, não podia deixar de tratar da base emocional da relação com a sociedade. “A psicanálise reconheceu que, em geral, as neuroses são associais em sua natureza e visam sempre a impulsionar o indivíduo para fora da sociedade” (Obras Completas, 223). Para Freud a Psicanálise esclarece satisfatoriamente alguns dos problemas referentes às artes e aos artistas, embora outros lhe escapem inteiramente. “No exercício de uma arte vê-se mais uma vez uma atividade destinada a apaziguar desejos não gratificados – em primeiro lugar, do próprio artista e, subseqüentemente, de sua assistência ou espectadores. As forças motivadoras dos artistas são os mesmos conflitos que impulsionam outras pessoas à neurose e incentivaram a sociedade a construir suas instituições” ( Obras Completas, 222). Do ponto de vista jungueano a psicologia pessoal de um artista também poderá esclarecer certas características de sua obra, mas não a explicará. A problemática individual, diz Jung, “tem tanta relação com a obra de arte quanto o solo com a planta que ali germina, porém a planta não é um produto do terreno, é também um processo fechado, vivo e criador cuja essência nada tem a ver com a natureza do terreno.” Assim , a autêntica obra de arte é uma produção impessoal. O artista é “um homem coletivo que exprime a alma incosciente e ativa da humanidade”. Como Freud, Jung insiste que “no ato criador, o artista mergulha até as funduras imensas do inconsciente. Ele dá forma e traduz na linguagem de seu tempo as instituições primordiais e, assim fazendo, torna acessíveis a todos as fontes profundas da vida”. Para Silveira, a psicologia analítica não pretende opinar sobre o valor estético das obras de arte, nem explicar o fenômeno da arte, seus pronunciamentos limitam-se a pesquisas concernentes aos processos da atividade criadora e ao estudo psicológico da estrutura da produção artística. “Sua contribuição maior será a decifração das imagens simbólicas que tomam forma na obra de arte, trazendo luz sobre as significações que encerram e que excedem as possibilidades comuns de compreensão da época em que adquiriram vida.” Partindo do conceito de inconsciente, submetido a essas duas visões e como este se manifesta, pretendo correlacioná-lo com eventos de manifestações “autorizadas” ( aceitas num determinado contexto social ) ou não ( desautorizadas – no sentido do que pode e o que não pode ) que ocorram ou tenham ocorrido sob forma artística e que estejam submetidas às correntes do organismo urbano carioca. Ou seja, reconceituá-lo de forma que se adapte a uma atmosfera específica, no caso o Rio de Janeiro, criando para tal um corpo psicológico para o contexto da cidade, partindo de pressupostos desde sua fundação, utilização e adaptação urbana e social, como que se delimitando aí uma anamnese carioca.

As manifestações inconscientes potencialmente identificadas no presente projeto não estarão submetidas especificamente à essa ou aquela corrente psicanalítica. Utilizarei o termo inconsciente, pois não discordam os autores acima citados que, esse tipo de invenção não se relaciona tão diretamente com o meio a não ser em situações extraordinárias como por exemplo através da ação artística ou do disturbio esquizofrênico.

Sob uma outra ótica, proponho também, a utilização do conceito do que seja espaço urbano, entendido a partir da ótica de Argan em História da Arte comoHistória da Cidade: “São espaço urbano também os ambientes das casas particulares; e o retábulo do altar da igreja, a decoração do quarto de dormir ou da sala de jantar, até mesmo o vestuário e o ornamento com que as pessoas se movem, recitam a sua parte na dimensão cênica da cidade”. [6] Apesar da abordagem apoiada inicialmente sobre o ponto de vista da psicanálise o presente projeto visa relatar manifestações que se identifiquem com o que trata a História da arte ou seja , fenômenos artísticos no contexto da civilização, porém como lembra-nos Argan “não se faz história sem crítica, e o julgamento crítico não estabelece a “qualidade” artística de uma obra a não ser na medida em que reconhece que ela se situa, através de um conjunto de relações, numa determinada situação histórica e , em última análise, no contexto da história da arte em geral” ( Argan, 15). É em Argan ainda que encontramos um dado com relação à situação do indivíduo e seu valor dentro do contexto da metrópole “o valor do indivíduo, do ego, foi sendo reduzido, até ser eliminado. O indivíduo nada mais é que um átomo na massa. Eliminando-se o valor do ego, elimina-s o valor da história de que o ego é protagonista; eliminando-se o ego como sujeito, elimina-se o objeto correspondente, a natureza…”( Argan, 7 ). Para Argan, no interior da cidade, tudo se realiza segundo uma techné cujo modelo é o processo que realiza a obra de arte. O espaço urbano é espaço de objetos ( ou seja, de coisas produzidas ) e entre o objeto e a obra de arte existe uma diferença hierárquica, uma diferença qualitativa, de valor. Nesse ponto se faz necessário conceituar o que seja, para Argan, arte, cidade e objeto. Sua interpretação fenomenológica implica em interpretar a obra de arte como “coisa à qual está relacionado um valor, que apenas o julgamento histórico pode reconhecer” e que está não apenas inerente , mas constitutiva da cidade. Assim a arte é encarada como atividade tipicamente urbana, a obra de arte determina um espaço urbano, “o que a produz é a necessidade, para quem vive e opera no espaço, de representar para si de um forma autêntica ou distorcida a situação espacial em que opera”(Argan, 2).


“a cidade produz o destino da humanidade: suas promoções, assim como suas segregaçõe, a formação de suas elites, o futuro da inivação social, da criação em todos os domínios.”( Félix Guattari)

Para Bruno Contardi, autor do prefácio da 4a edição de História da Arte como História da Cidade – G. Carlo Argan , Argan parte da relação entre cidade ideal e cidade real – “pólos de uma dialética constante no interior da cidade histórica, melhor ainda, constitutivos da sua historicidade profunda”(Argan, 5), para relacionar a crise da historicidade intrínseca, congênita à cidade. Argan está, então diagnosticando males intrínsecos relacionados à cidade e sua relação com a disciplina da história da arte, numa entrevista após o término de seu mandato como prefeito de Roma ele declarou: “Nas minhas convicções teóricas, nada mudou. Mas… antes eu sabia que a cidade está doente; agora sei de doença ela morre. Para ser o historiador da cidade, o que para mim é o mesmo que ser o historiador da arte, a experiência foi fundamental, ainda que angustiante.” Compartilho da tese apresentada por Argan , a cidade está doente, a existência do indivíduo como tal está doente e submetida a um sistema de circuitos de informação e comunicação. No capítulo Urbanismo, espaço e ambiente do mesmo livro, Argan reforça a idéia de que a natureza está fora da cidade – entendendo a natureza como mundo das causas primeiras e das finalidades últimas – “A natureza era o que se encontrava além dos muros da cidade, o espaço não protegido, não organizado, não construído”( Argan, 213). Esse espaço , num passado não tão remoto assim segundo Argan, era habitado por seres cuja natureza parecia incerta e ambígua, entre o humano e o animal, gente do campo, que vivia segundo tradições antigas e se dedicava a técnicas arcaicas quase rituais, era a verdadeira natureza, onde o citadino ia procurar um momentâneo e rgenerador contato com a grande mãe. “Era o “sublime”e representava o limite, a fronteira entre o habitado e o inabitável, entre a cidade e a selva, entre o espaço geométrico ou mensurável e a dimensão ilimitada, incomensurável do ser… a cidade é a dimensão do distinto, do relativo, do consciente, do ego; a natureza sublime é a dimensão do transcendente do absoluto, do superego( Argan, 213). O tema do “sublime” , na história da interpretação da cidade permanece , mas numa inversão de papéis, Argan nos fala das catedrais góticas, da arquitetura de Michelangelo, de Gaudí como exemplos de poéticas do “sublime”. O mito do sublime e do terrífico, não mais é representado pelas forças cósmicas, transfere-se para as forças tecnológicas, portanto humanas.


“A modernidade deve estar sob o signo do suicídio, que sela um querer heróico que não faz concessões à atitude que lhe é hostil. Tal suicídio não é desistência, mas heróica paixão. É a conquista da modernidade no âmbito das paixões” Walter Benjamin

É em Walter Benjamin que iremos encontrar um pensamento que se revolta contra a mentira de que o homem e o espírito humano se fundamentam em si mesmos, e que neles e deles se origina um absoluto. “Entre os pólos de sua filosofia – mito e reconciliação – esvai-se o sujeito… …reduzida a um momento dialético de transição, e o reconciliar do homem com a criação é condicionado pela dissolução de toda essência humana posta por si mesma” ( Adorno, 231). Benjamin assumia o princípio fundamental de que a menor célula da realidae contemplada equivalia ao resto do mundo todo. Seu modo ensaístico lançava mão da interpretação de fenômenos de modo materialista o que significava menos explicá-los a partir da totalidade social do que relacioná-los imediatamente, em sua individuação, a tendências materiais e lutas sociais. A paisagem urbana que Benjamin comtempla está presente , segundo Adorno, no plano do livro sobre Paris. A concepção do livro fora desencadeada por um impulso concreto. Um artigo publicado na Neue Rundschau, “Kitsch onírico”, que tratava do choque de elementos obsoletos do século XIX no surrealismo. O ponto de partida foi um artigo sobre passagens e galerias parisienses que pretendia reconstruir a idéia da época no sentido de uma proto-história da modernidade.”À forma do novo meio de produção, forma que no começo ainda é denominada pelos velhos meios (…), correspondem, na consciência coletiva, imagens em que a novidade se interpenetra com o velho. Essas imagens são projeções do desejo e, nelas, a coletividade procura superar e transfigurar tanto a natureza inacabada do produto social quanto as carêncais da ordem social da produção. (…) As experiências desta, depositadas no inconsciente da coletividade, interpenetrando-se com o novo, geram a utopia, que deixa o seu rastro em mil figuras e configurações da vida: desde construções permanentes até modas fugazes. Mas essas imagens eram, para Benjamin, mais que arquétipos do inconsciente coletivo, como o são para Jung: Benjamin as entendia como cristalizações objetivas do movimento coletivo e batizou-as com o nome de “imagens dialética”( Adorno, 233). Benjamin intencionava escrever a história com imagens, em Alegoria, Imagens, Tableau, ( Novaes org.- Artepensamento) , Willi Bole define o arcabouço historiográfico de Benjamin: desenhar, por meio da idéia-mônada, “uma imagem abreviada do mundo “; transpor para o estudo de uma época “a concretude obtida para um jogo infantil, um prédio, uma situação de vida; flagrar as “imagens nas quais a experiência da grande cidade se condensa numa criança de classe burguesa” e escrever uma “história social da cidade de Paris no século XIX ( Obra das Passagens, 1927-40).” Segundo Bole, Benjamin articula a história “micrológica” com a “macro”- história. Assim a suposição de Benjamin de que a modernidade esteja sob o signo do suicídio permite-lhe representar os elementos específicos da modernidade na imagem de um Eterno Retorno do Mesmo, a humanidade está então condenada à danação, como argumenta Muricy em Benjamin: política e paixão ( Sergio Cardoso (org.) – Os sentidos da paixão).


Hipóteses

“Mas porquê esta invocação da arte e da ciência num mundo em que os sábios e os técnicos, e até os artistas e a própria ciência e a própria arte estão a o serviço das soberanias estabelecidas? E que a arte, assim que consegue atingir a sua própria grandeza, o seu próprio gênio, cria cadeias de descodificação e de desterritorialização que instauram, fazem funcionar, máquinas desejantes. (Delleuze e Guattari)

Vislumbro, através do presente projeto, correlacionar alguns conceitos e propostas tratados na obra de Delleuze e Guattari O Anti-Édipo, transpondo-os, de forma a recolocá-los, numa ótica que identifique-os com o contexto do imaginário da cidade do Rio de Janeiro. E assim ilustrar os diversos aspectos levantados nessa obra. Parto da premissa de que este centro urbano terceiro mundista, seja altamente rico e representativo da maioria das questões do Anti-Édipo. Quando os autores condenam os sábios e os técnicos, a arte a ciencia e os artistas, por estarem submetidos às cadeias representativas e por fim às máquinas desejantes, ao meu ver decretam o seu falecimento. Minha hipótese trabalhará apenas com a morte do artista da forma que considero que essses autores estabelecem. Esta argumentação me parece clara quando eles propõem: “ a escola veneziana de pintura: enquanto Veneza desenvolve o mais poderoso capitalismo mercantil até aos confins de um Urstaat que lhe deixa uma larga autonomia, a sua pintura corre, aparentemente, num código bizantino em que até as linhas e as cores se subordinam a um significante que determina a sua hierarquia como uma ordem vertical. Mas por meados do século XV, quando o capitalismo veneziano entrenta os primeiros sinais de declínio, algo acontece nessa pintura: dir-se-ia um novo mundo que se abre, uma outra arte, em que as linhas se desterritorializam, as cores se decodificam, e só apontam para relações que estabelecem entre si. Do quadro nasce uma organização horizontal ou transversal com linhas de fuga ou de passagem. O corpo de Cristo é maquinado por todos os lados e de todas as maneiras, esticado em todas as direções, desempenhamdo o papel de corpo pleno sem órgãos, a que todas as máquinas de desejo se agarram, lugar de exercícios sado-masoquistas onde explode a alegria do artista. Aparecem até Cristos maicas. Os órgão são as potências directas do corpo sem órgãos e emitem sobre ele fluxos que as mil feridas, como as flechas de S. Sebastião [7] , cortam e re-cortam de modo a produzir outros fluxos.” (O Anti-Édipo – Delleuze, Guattari, 387). Porém a questão principal levantada, será olhar a cidade e enxergar nela, erupções que pertubem uma soberania estabelecida. Tentarei assim, demonstrar o Rio de Janeiro como sendo arquétipo para uma esquizo-análise , conceito forjado pelos autores acima citados.



[1] Lenz, texto de Büchner, tradução francesa Ed. Fontaine.- Única referência a esse autor encontrada nesse capítulo.

[2] O conceito de artista que proponho não necessita de um agente físico e consequentemente abro mão da necssidade concreta da obra de arte materializada em um determinado suporte físico. A autonomia desse evento tido como artístico (a partir da ótica proposta) não será mais regido pela relação ato criador/criação, mas “simplesmente” da combustão espontânea e portanto autônoma e real desse evento. Não desejo levantar aqui , por achar prematuro, uma questão que, provavelmente tenha sido fundamental na escolha do tema desse projeto, a morte do artista.

[3] Proponho uma ampliação do conceito abordado por Argan , onde a porta representa um limiar do mundo contido na cidade. Esses espaços instantâneos ou portais instantâneos poderiam ser entendidos como os eventos fugazes nos quais o indivíduo emerge da sua condição passiva em meio ao caos urbano.

[4] Ver noção de experiência (Erfahrung) Walter Benjamin. Obras escolhidas , São Paulo, Brasiliense, 1985.

[5] Citado em Benjamin: Política e Paixão texto de Katia Muricy in Os Sentidos da Paixão org. Sergio Cardoso) .

[6] ( G.C. Argan, “La storia dell’arte”, in Storia dell’arte, n: 1-2, 1969,pp. 5-37.)

[7] São Sebastião é considerado padroeiro oficial da cidade do Rio de Janeiro.

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